segunda-feira, 29 de julho de 2019

O fim do Portugal Velho



José Xavier de Gomide Mouzinho da Silveira (1780-1849) é o reformador liberal que redige as principais leis orgânicas do cartismo português, emitidas formalmente nos Açores, mas aplicadas no continente a partir de 1834. 

Aos 52 anos, é ele o ministro da fazenda e da justiça da regência de D. Pedro, entre 3 de março a 13 de dezembro de 1832. 

Magistrado em Marvão, Setúbal e Portalegre, depois de se formar em leis, em 1802. 

Nomeado administrador-geral das alfândegas em 1821, por influência do seu amigo Manuel Fernandes Tomás (1770-1822). 

Ministro da fazenda, de 1 a 19 de junho de 1823, depois da vilafrancada. Preso durante a abrilada. Deputado em 1826. 

Em 1828 vai para o exílio em Paris. Contudo, depois do desembarque no Mindelo (8 de julho) e da instalação no Porto, Mouzinho logo pede a demissão, em 13 de dezembro. Alfredo Pimenta chama-lhe o grande ditador do liberalismonos nove meses que foi ministro do Imperador do Brasil pôs Portugal do avesso. 

Ou, como assinala Oliveira Martins (1845-1894), dá-se, com ele, o fim do Portugal Velho. No seu programa, considera-se que sem a terra livre em vão se invoca a liberdade política, acreditando que se o povo pagar menos, o Tesouro vai receber mais

Luís Augusto Rebelo da Silva assinala que as coisas que ele demolia não tornaram a levantar-se, quando lançou liberdade da terra, liberdade do trabalho, e realidade das instituições constitucionais, porque estas leis valem exércitos, como ele reconhecia

É o nosso 89, de acordo com J. P. de Oliveira Martins (1845-1894). Como dele disse Alexandre Herculano, libertou a terra; lançou o machado à árvore podre das tradições quase feudais; acabou com a opressão da classe mais importante da família portuguesa – a classe dos agricultores. Mas faltaram-lhe desenvolvimento e provisões que facilitassem a sua execução, falta que subministrou pretextos no espírito da reação para o falsificar e anular em grande parte. Era o filósofo de quem um grande príncipe aproveitaria as ideias, sem lhe seguir os conselhos … 

Não consentia que se ferisse a liberdade dos indivíduos, nem que se lhes atacasse a propriedade (Oliveira Martins). 

D. Pedro V salienta que ele tinha os defeitos, as paixões quase irracionais das classes mais baixas, mas compreendia-as porque as sentia. Mas que se enganou acreditando que tinha o poder de operar sobre a massa inteligente; somente o poder das armas lhe podia fazer cair nas mãos essa massa inerte

A regência é, com efeito, marcada pelas reformas estruturais de Mouzinho que, na torre de marfim das ilhas atlânticas, delineou o programa do Portugal liberal, através de uma série de decretos ditatoriais:
- em 16 de março, extingue, nos Açores, o pagamento dos dízimos (quando esta lei foi alargada ao continente, tirou aos fidalgos liberais uma parte importante dos rendimentos, atentando contra os chamados direitos adquiridos);
- em 29 de março, a liberdade de ensino;
- em 4 de abril, abolição dos morgados e capelas de rendimentos inferiores a 200 000 réis;
- em 19 de abril, extinção das sisas sobre as transações e das portagens;
- em 17 de abril, abolição das penas de confisco para todos os delitos, contrariando um decreto da regência de 7 de março de 1831 que mandava sequestrar os bens dos miguelistas;
- em 18 de abril, definição dos delitos contra a propriedade; em 20 de abril, franqueando-se para a saída de géneros do reino;
- em 12 de maio, redução dos foros para metade; em 16 de maio, nova divisão administrativa.

O fim do Portugal Velho

José Xavier de Gomide Mouzinho da Silveira (1780-1849) é o reformador liberal que redige a s principais leis orgânica...