Os oposicionistas não perdem a honra quando mobilizam um fascista para se derrubar o fascismo. Apenas reconhecem os falhanços e as limitações da técnica do mero reviralho. E Humberto Delgado nem sequer vai ser um adversário de Américo Tomás, mas o obviamente demito-o, face a Salazar.
O falhanço da frente popular do MUD, uma década antes, defronta um salazarismo ainda jovem, assente na neutralidade colaborante face aos Aliados.
E a campanha de Norton de Matos (1867-1955) ainda tem a vulnerabilidade de parecer o reviralho.
Além disso, o comunismo parece continuar a ser o fulcro de uma alternativa oposicionista, não apareça o cavaleiro andante de Henrique Galvão, nas suas permanentes conspirações contra um regime de que fora um dos mais destacados construtores.
Explorando as contradições dentro do Vinte e Oito de Maio, a oposição acaba por adotar a tática proposta por António Sérgio (1883-1969) e ainda ensaia tibiamente uma candidatura de Manuel Quintão Meireles (1880-1962).
Mas é em 1958 que aparece, com estrondo quase populista, o general sem medo.
Os comícios e as manifestações que o seu verbo mobiliza já não são a repetição monocórdica das tradicionais manifestações contra o regime, mas algo de inesperado que reflete uma mais vasta alteração da legitimidade no pós-guerra.
A democracia volta a ser um apetite sociológico que pode varrer Salazar.
E este logo o percebe, acabando com o sufrágio direto e universal para a eleição do Presidente da República. Teme ser afastado por aquilo que qualificara, em 1949, como um golpe de Estado constitucional.
No entanto, três anos depois, toda esta dinâmica se suspende quando deflagra a guerra colonial.
E a partir de então acontece o paradoxo, quando o regime, aproveitando o patriotismo imperial de defesa de uma nação em perigo, contra os terroristas e a anti-nação, prefere a defesa nacional à democracia e vai para a frente de guerra, cantando o Angola é nossa!
