O salazarismo não é apenas o resultado de um ativismo, o de Salazar, e de uma abstenção, a de Carmona, mas antes a síntese de um paralelogramo de forças de influência no grande jogo da rede das elites na antecâmara do poder, as quais acabam por ser favoráveis à manutenção do situacionismo ditatorial.
Nos anos trinta, as ditas forças nacionalistas não vivem, então, no ambiente tristonho e pós-autoritário em que irão definhar nos anos cinquenta. Porque ainda vibra o dinamismo ascendente dos grupos que favoreceram a queda da primeira república e que fizeram desaparecer o centrão político.
Os republicanose reviralhistas esgotam quase todas as suas energias nas hipóteses do golpismo putchista, contabilizando quartéis, chefias militares e hipótese de mobilização de forças de segurança. Ainda têm ilusão de apoios internacionais e ficam muitos esperançados com a instauração da república em Espanha, quase se iludindo com a hipótese de incursões de sinal contrário àquelas que sofreram.
Depois da derrota de 1927, quase deixam que a frente interna seja organizada a partir dos comandos que precariamente unificam nos exílios, com as chefias de outrora, desvalorizando as alianças oposicionistas domésticas e esvaindo-se em contactos com os ministros da ala republicana do Vinte e Oito de Maio.
Os socialistas continuam a ser praticamente inexistentes. Os anarquistas queimam os seus últimos cartuchos em voluntarismos repentistas, dando o seu último vagido em janeiro de 1934, enquanto os comunistassão compreensivelmente egoístas, porque sentem que, num momento de criação e implantação, têm mesmo que ser lobos solitários, em energia messiânica e cumplicidades conspirativas. O restante quadro político é uma insignificância. Os democratas-cristãos não conseguem ter autonomia face ao episcopado e até diante de Salazar.
A maçonaria, mesmo antes de ser extinta, já não mexe. E o Partido Republicanoestá mais preocupado em contabilizar os que resistem às ofertas de Salazar para o vira-casaquismo, almejando até o estabelecimento de um modus vivendi negociado com a ditadura.
A sociedade pode ainda não ser totalmente salazarista,mas já não é republicana e, muito menos, monárquica, liberal ou legitimista. Salazar, com um pedacinho de sorte e outro tanto engenho, está mesmo para durar, durante décadas. Até armazena energias para resistir à vitória do antifascismo na Segunda Guerra Mundial, porque as opções políticas internas ainda não se decalcam da grelha dos movimentos políticos internacionais.
Os erros políticos e financeiros, da monarquia e da república, sobretudo a quarentena que nos foi imposta pelo sucedâneo de bancarrota, ocorrido em 1890, ao colocar-nos fora do ritmo do crédito externo e da geofinança de então, transformam-nos numa estufa, bem à beira mar plantada, que dá ao salazarismo um adequado cordão sanitário.
Nem sequer no pós-guerra seremos abalados pelos debates sobre o europeísmo e o próprio Welfare State. O atlantismo até prefere a certeza de uma ditadura suave ao risco de uma esquerda frentista, onde poderiam predominar os estalinistas caseiros.
Inevitavelmente fora do mundo europeu e até ibérico, não penetram, aqui, as próprias influências das sacudidelas políticas e sociais da república espanhola e da posterior guerra civil, antes de surgiram guerra civil europeia que se transformará na Segunda Guerra Mundial.
Estamos sós, não temos dívida, não há ainda turismo de massa e assim nos ensimesmamos numa espécie de ditadura de silêncio, naquilo que Antoine Saint-Exupéry (1900-1944)vai qualificar, em 1940, como paraíso claro e triste.
A Europa não compreende a emergência deste misto de república de catedráticose de república de condes, a que não se nos elementos típicos da categoria bélico-castrense dos autoritarismos de então. E Salazar conhece perfeitamente os meandros com que se contenta o poder banco-burocráticoe se deleitam as elites ávidas do favor estadual, até para se conservarem migalhas.
Basta manejar a lógica formal da escolástica, aliando-se ao modernismo, deixar que a Igreja Católica se vá restaurando e conter os extremos para que se possa viver habitualmente nos brandos costumes com que dura o fontismo. Para tanto, importa conservar o que está, chamar-lhe revolução nacional e não sentir nostalgia por regressos ao reviralhismo republicano, ou ao restauracionismo monárquico. Basta ameaçar com a hipótese da bancarrota e navegar na conjuntura das boas contas.
Salazar não pode mesmo ser monárquico nem republicano e nem sequer parecer da direita ou da esquerda, liberal ou socialista, reformista ou revolucionário. Cada um dos apoiantes, que o glose como quiser, mas em obediência. O salazarismo é mesmo um conservadorismo do que vai estando. Tem que aguentar, sabendo que o essencial do poder é procurar mantê-lo.
Aliás, nem sequer gastará energias para o conquistar, porque o mesmo lhe tinha sido oferecido e ele julga até que efetivamente o vai merecendo, por palavras e obras. Até sente, sinceramente, que está mesmo ao serviço de Portugal, com uma doutrina correta e que não tem de correr para ser eleito para deputado ou presidente.
Ele é que faz eleger os outros, quando os nomeia para um governo, um parlamento ou um palácio presidencial. Ele, não! Tem outra legitimidade que considera ir além do povo eleitoral, porque cumpre aquilo que a própria providência divina lhe sopra, à maneira do papa que podia ter sido, caso não tivesse abandonado o seminário.
