terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma bandeira para a liberdade guiar o povo




No ano de 1830, quando morre D. Carlota Joaquina (1775-1830) e se dá o enforcamento de 44 revoltosos liberais em Campo de Ourique, as novas da Europa não parecem favoráveis aos miguelistas, tanto com a Revolução de Julho, em França, como com a revolta belga. 

É quando a regência de Angra eleva a bandeira azul e branca a símbolo nacional, ao mesmo tempo que conquista as ilhas do Pico, São Jorge, Faial, Graciosa e São Miguel. 

Por outras palavras, tais cores passam a constituir um sinal de rebeldia e de projeto de libertação, numa altura em que o miguelismo, vendo nelas uma manifestação das que são usadas pelos maçons no respetivo rito dominante, o francês, até perseguem quem as usa na rua, em nome do gosto, ou da moda, mesmo sem qualquer relação com o respetivo simbólico.

Contudo, há pouca humildade para se reconhecer que a nossa guerra civil é um simples capítulo de um mais amplo conflito europeu, onde as parcelas portuguesas são simples extensões de poderes supraestaduais, tanto no plano militar, onde não faltam mercenários, como no plano financeiro, dado que ficarão os empréstimos, a pagar, sob pena de perdermos as garantias prestadas, nomeadamente possessões de além-mar. 

O conflito lusitano é mais uma dessas guerras por procuração, porque o que resta de Portugal, depois da separação do Brasil, já não gera suficientes fatores internos de poder, visando que uma das forças em confronto mantenha, ou conquiste, a própria capital, com a sua memória de Terreiro do Paço. 

Já somos pigmeus, onde uma simples constipação de Madrid, Paris ou Londres produz um imediato arrastão.

Passados quase dois séculos, importa olhar esta divisão entre miguelistas e pedristas, cada um com o seu governo, numa perspetiva de verdade, livre dos propagandismos missionários das parcelas em guerra, onde a única participação que, na verdade, cabe ao povo é morrer ingloriamente. 

Primeiro, há, entre os dois lados, grande similitude, em termos de subsolos filosóficos, ambos com ilustres intelectuais e importantes adesões efetivas. 

Em segundo lugar, não há o bem contra o mal, nem a inteligência contra a selvajaria, mas antes a estupidez de qualquer guerra civil: a resolução de uma questão essencialmente civil pelo recurso à violência armada, onde acaba por só escrever a história o vencedor. 

Ai dos vencidos!

O fim do Portugal Velho

José Xavier de Gomide Mouzinho da Silveira (1780-1849) é o reformador liberal que redige a s principais leis orgânica...