No ano de
1830, quando morre D. Carlota Joaquina (1775-1830) e se dá o enforcamento de 44 revoltosos liberais em Campo de Ourique, as novas
da Europa não parecem favoráveis aos miguelistas,
tanto com a Revolução de Julho, em
França, como com a revolta belga.
É quando a regência de Angra eleva a bandeira azul e branca a símbolo
nacional, ao mesmo tempo que conquista as ilhas do Pico, São Jorge, Faial,
Graciosa e São Miguel.
Por outras palavras, tais cores passam a constituir um
sinal de rebeldia e de projeto de libertação, numa altura em que o miguelismo, vendo nelas uma manifestação
das que são usadas pelos maçons no respetivo rito dominante, o francês, até
perseguem quem as usa na rua, em nome do gosto, ou da moda, mesmo sem qualquer
relação com o respetivo simbólico.
Contudo,
há pouca humildade para se reconhecer que a nossa guerra civil é um simples
capítulo de um mais amplo conflito europeu, onde as parcelas portuguesas são
simples extensões de poderes supraestaduais, tanto no plano militar, onde não
faltam mercenários, como no plano financeiro, dado que ficarão os empréstimos,
a pagar, sob pena de perdermos as garantias prestadas, nomeadamente possessões
de além-mar.
O conflito lusitano é mais uma dessas guerras por procuração, porque o que resta de Portugal, depois da
separação do Brasil, já não gera suficientes fatores internos de poder, visando
que uma das forças em confronto mantenha, ou conquiste, a própria capital, com
a sua memória de Terreiro do Paço.
Já somos pigmeus,
onde uma simples constipação de Madrid, Paris ou Londres produz um imediato arrastão.
Passados
quase dois séculos, importa olhar esta divisão entre miguelistas e pedristas,
cada um com o seu governo, numa perspetiva de verdade, livre dos propagandismos
missionários das parcelas em guerra, onde a única participação que, na verdade,
cabe ao povo é morrer ingloriamente.
Primeiro, há, entre os dois lados, grande
similitude, em termos de subsolos filosóficos, ambos com ilustres intelectuais
e importantes adesões efetivas.
Em segundo lugar, não há o bem contra o mal,
nem a inteligência contra a selvajaria, mas antes a estupidez de qualquer
guerra civil: a resolução de uma questão essencialmente civil pelo recurso à
violência armada, onde acaba por só escrever a história o vencedor.
Ai dos
vencidos!
