Excertos de textos de José Adelino Maltez, em obras no prelo, visando a comemoração do duplo centenário da revolta liberal
sábado, 20 de julho de 2019
A nação é de todos, o Estado é nosso
A tentação paramaçónica que deu origem à carbonária de Artur Duarte da Luz de Almeida, hierarquicamente dependente de uma alta-venda, coincidente com a direção do Grande Oriente Lusitano Unido e paralela ao diretório do partido republicano, inquinou todo os posterior regime, prenhe de estados paralelos.
No original ministério da guerra de Correia Barreto, manda, por exemplo, a estrutura da Jovem Turquia. No governo civil de Lisboa, estrutura-se um aparelho de segurança do partido já afonsista, funcionando como polícia política irregular, a chamada formiga branca.
Defeito de um partido que tinha conquistado o poder através da chamada artilharia civil e que, logo, vai enfrentar as incursões monárquicas, vindas da Galiza, as que esperavam o apoio de padres guerrilheiros, à semelhança do que acontecera na Patuleia.
Passar da clandestinidade conspiratória para o despacho dos gabinetes de Estado não é apenas uma mudança de hábitos, mas também começar a sentir em qualquer esquina a própria sombra da teoria da conspiração, mesmo que se chamem para adjuntos, dos novos ministros e dos governadores civis, antigos bombistas.
Compreende-se, pois, que o Estado republicano inicial atinja uma espécie de febre da espionite e se fabriquem séries de inventoras que, muitas vezes, não coincidem com as reais intentonas que se vão insinuando nos interstícios do novo poder, entre os próprios situacionistas.
Certo que o números de presos políticos é relativamente baixo, face à intensidade da mudança ocorrida. Do mesmo modo, as violências punitivas que escapam ao controlo das forças hierarquicamente dependentes dos ministros e das chefias militares são exceções que confiram uma regra de normalidade.
Os povos continuavam tão serenos que até ficavam maioritariamente indiferentes, considerando que o Estado eram os outros eles, do mais do mesmo. Como dizia João Chagas, a nação é de todos, o Estado é nosso.
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