
A consciência patriótica, tanto entre as elites como nos povos, ainda não existia no tempo de El-Rei Junot. As qualificações de resistentes, traidores, libertadores e colaboracionistas é sempre obra de conceitos retroativos, manipulados pelos futuros historiadores, ao serviço das obediências vencedoras.
A realidade é outra. Mesmo quando um defensor da resistência é um puro reacionário, em nome do trono e do altar. E se há maçons que chegam a saudar a bela ordem exógena, outros logo alinham na luta militar contra os franceses, como o futuro patriarca da independência brasileira.
O próprio invasor quer vestir-se de libertador e até gostaria de fazer, do ocupado, uma espécie de república irmã, coroada por um príncipe da família Bonaparte. Tal como Junot se insinua, sem sucesso, como grão-mestre de Grande Oriente Lusitano que tinha sido institucionalmente fundado, cinco anos antes, por um brasileiro, Hipólito José da Costa, na imagem.
Ainda falta o romantismo de Garrett e Herculano para que sejamos uma pátria, com adequada educação nacional. Tudo é confuso, nada é inteiro. Há um ténue fio que separa o ser do não-ser.
A varridela napoleónica de vários antigos regimes trazia, sem dúvida, muita modernidade, do código civil à polícia política científica, a do Maneta, e até podia impulsionar a organização profissional de uma nova tropa.
O feitiço voltou-se contra o feiticeiro e geraram-se revoltas nacionais num velho continente que estava hierarquizado por soberanias, católicas e protestantes.
Mesmo que a Santa Aliança se mostre eficaz, quando evita as revoluções alemãs e a unificação italiana, o vento vai soprar acelerado nas Américas.