
O Portugal contemporâneo, semeado pela conspiração de Gomes Freire, viveu sempre um ciclo complexo de conflito entre o chamado Estado e a Igreja Católica. Ele terminou quando, em 1975, os últimos restos da memória carbonária, ligados à segurança do PS, decidiram defender o edifício do Patriarcado de tentativas de assalto por parte da extrema-esquerda. Ou quando os padres, o PPD e o PS se juntaram na manifestação da Alameda.
Tudo se consolidou porque Mário Soares e Francisco Sá Carneiro firmaram um tratado de paz com os bispos, através de D. António Ferreira Gomes e D. António Ribeiro.
Trata-se da lei fundamental não escrita da atual democracia pluralista. Os bispos, reconhecendo que o Estado é laico. Os políticos da democracia, garantindo a independência da Igreja Católica. Ambos rejeitando o anticongreganismo, o congreganismo e todos salientando que, se o Estado é laico não deve ser laicista, dado que a sociedade o pode não ser.
A democracia é, sobretudo, democracia da sociedade civil e a religião tem direito a um lugar público, nesta fase pós-secular.
O Estado não tem religião, incluindo a tradicional e maioritária, mas o Estado não tem que ter valores antirreligiosos, nomeadamente proibindo manifestações públicas, como procissões, toques de sinos ou uso público de hábitos talares.