sexta-feira, 26 de julho de 2019

Em Portugal, a Nação acessível a todos e o Estado a muito poucos




No décimo ano de ditadura constitucional e no quarto de Segunda Guerra Mundial, Salazar assume claramente a neutralidade colaborante, firmando um acordo sobre a utilização de uma base pelos Aliados, enquanto a mais dinâmica das oposições, a liderada pelo PCP, adota uma linha dita frentista de unidade antifascista, favorecendo a criação do Movimento Nacional de Unidade Antifascista, em dezembro, comando por Norton de Matos (1867-1955).
O mesmo Salazar observa que em Portugal a Nação acessível a todos e o Estado a muito poucos (prefácio aos Discursos II, 1943). Mas tem de reparar que certa geração de monárquicos, herdeiros do próprio Integralismo Lusitano, começa a deslizar para a oposição, como o demonstram as reflexões de Francisco Vieira de Almeida (1888-1962) e de Fernando Amado (1899-1968).

O regime é cada vez uma terra estéril, onde grassam patos-bravos e pombas mansas, com muitas serpentes, serviçais e traiçoeiras, largando ovos em cada traseira de um lugar que dê direito ao vencimento, mesmo sem muito emprego. 

Entristecemos, agarrados a seitas, por entre bufos e oportunistas, que saúdam o que aparece como vencedor, nomeadamente de escreventes de pasquins, fazendo campanhas negras, em troca de tostões, ou exercendo vinganças pessoais, à boa maneira inquisitorial. Ninguém espera o desespero de um qualquer acaso que  nos adie a ida para a tumba.

Salazar pode temer a influência maçónica entre norte-americanos e britânicos, desconfiando da democracia liberal, de direita ou de esquerda, a que podia fazer renascer, entre nós, um qualquer reviralhismo, monárquico ou republicano. 

Mas nunca se esquece que um dos primeiros atos de Adolf Hitler (1889-1945), na anexação da Áustria, foi o assassinato de Engelbert Dolfuss (1892-1934), o mais íntimo confrade ideológico do corporativismo português. 

Sabe, sobretudo, que o generalíssimo Franco chega a ponderar a invasão do território português, no começo da Segunda Guerra Mundial.

Assinale-se que o choque da historiografia antifascista, gerado como reação à biografia política do testamenteiro de Salazar, Franco Nogueira (1918-1993), depois de alguns vagidos de qualidade, acaba por perder-se em interpretações do mais do mesmo que pode dar dissertações académicas, lugares de cronistas institucionais e alguns subsídios, embora aborreça que andem com o carro à frente dos bois, isto é, que, antes de alguns factos, cantarolem as prévias interpretações militantes das causas de que são aparentes ciências auxiliares.

É certo que viajar pelos tempos da ditadura é penetrar numa selva densa através dos indícios visíveis, nomeadamente das hagiografias coletivas de certos partidos, ou seitas, que cultivam a oficiosidade de um historicamente correto, a que têm justo direito, mas que não disfarça o óbvio de uma pertença a certa entidade a quem reconhecem o monopólio que decreta a superioridade moral, mas que não livra ninguém das habituais patifarias, comuns a quem não vive como diz pensar.

A verdade é que, com tanto antifascismo controlado, ficamos sem radicais democráticos, da família de António Sérgio (1883-1969) e Raul Proença (1884-1941), mas também sem herdeiros de uma postura centrista. E entalados por extremos da intolerância, corremos o risco de apagar, do nosso presente, a boa memória de passados com a fidelidade liberal da monarquia e da república, e com os permanentes resistentes às ditaduras.

A inteligente descrição da vida de Salazar feita pelo seu dileto ministro dos estrangeiros, mostrando como as oposições eram sempre acanhadas, pode não revelar inequivocamente o essencial do salazarismo, o de transmitir às massas, e às elites, que ele só existiu porque não tinha alternativa.

Contudo, a fabricação desta imagem do poder é, antes de mais, o resultado de um longo e maturado plano da arte de manutenção no poder. 

Porque se torna preciso demonstrar que ele não sequer conquistou um poder que lhe teria sido oferecido, depois de, num primeiro impulso, o ter abandonado, desde parlamentar eleito em 1921, a episódico ministro, nos primeiros dias da ditadura, em 1926. 

Com efeito, Franco Nogueira (1918-1993) nunca valoriza a participação de Salazar em congressos de associações comerciais e industriais, nem o papel que teve de consultor de grandes grupos económicos, antes de 1926.

A cirúrgica intervenção crítica contra Sinel de Cordes (1867-1930), no jornal Novidades, não é apenas um impulso de polémica, mas o revelador da construção metódica de uma imagem de prestígio que dará rampa para que o salto para a cadeira central do poder não seja feito a partir do chão pisado, mas do cavalo que sempre acompanhou o movimento da manada dominante. 



O seu amigo de quarto, D. Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), até já tinha ido para Lisboa, como bispo de Mitilene, isto é, número dois do patriarcado.

Toda a trama tinha sido lançada até pelo cuidadoso processo dos catolaicos que não marraram contra a república à toa, como o fizeram o grupo de José Fernando de Sousa, Nemo (1855-1942), ou os monárquicos integralistas. Salazar e o seu grupo, apesar de profundos adversários do republicanismo, souberam apresentar uma imagem de sensatez e de sentido de Estado, até quando cooperaram e chegaram a ser elogiados por António Maria da Silva (1872-1950).

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