No
décimo ano de ditadura constitucional e no quarto de Segunda Guerra
Mundial, Salazar assume claramente a neutralidade colaborante,
firmando um acordo sobre a utilização de uma base pelos Aliados,
enquanto a mais dinâmica das oposições, a liderada pelo PCP, adota uma linha
dita frentista de unidade antifascista, favorecendo a criação do Movimento
Nacional de Unidade Antifascista, em dezembro, comando por Norton de Matos (1867-1955).
O mesmo Salazar observa que em Portugal a Nação acessível a todos e o
Estado a muito poucos (prefácio aos Discursos
II, 1943). Mas tem de reparar que certa geração de monárquicos, herdeiros do próprio Integralismo Lusitano, começa a deslizar para a oposição, como o
demonstram as reflexões de Francisco Vieira de Almeida (1888-1962) e de Fernando Amado (1899-1968).
O
regime é cada vez uma terra estéril, onde grassam patos-bravos e pombas
mansas, com muitas serpentes, serviçais e traiçoeiras, largando ovos em
cada traseira de um lugar que dê direito ao vencimento, mesmo sem muito
emprego.
Entristecemos, agarrados a seitas, por entre bufos e
oportunistas, que saúdam o que aparece como vencedor, nomeadamente de
escreventes de pasquins, fazendo campanhas negras, em troca de tostões, ou
exercendo vinganças pessoais, à boa maneira inquisitorial. Ninguém espera o
desespero de um qualquer acaso que nos adie a ida para a tumba.
Salazar
pode temer a influência maçónica entre norte-americanos e britânicos,
desconfiando da democracia liberal, de direita ou de esquerda, a que
podia fazer renascer, entre nós, um qualquer reviralhismo, monárquico ou
republicano.
Mas nunca se esquece que um dos primeiros atos de Adolf
Hitler (1889-1945), na anexação da
Áustria, foi o assassinato de Engelbert Dolfuss (1892-1934), o mais
íntimo confrade ideológico do corporativismo português.
Sabe, sobretudo,
que o generalíssimo Franco chega a ponderar a invasão do território português,
no começo da Segunda Guerra Mundial.
Assinale-se
que o choque da historiografia antifascista, gerado como reação à biografia
política do testamenteiro de Salazar, Franco Nogueira (1918-1993), depois de alguns vagidos de qualidade, acaba por
perder-se em interpretações do mais do mesmo que pode dar dissertações
académicas, lugares de cronistas institucionais e alguns subsídios, embora
aborreça que andem com o carro à frente dos bois, isto é, que, antes de alguns
factos, cantarolem as prévias interpretações militantes das causas de que são
aparentes ciências auxiliares.
É
certo que viajar pelos tempos da ditadura é penetrar numa selva densa através
dos indícios visíveis, nomeadamente das hagiografias coletivas de certos
partidos, ou seitas, que cultivam a oficiosidade de um historicamente correto,
a que têm justo direito, mas que não disfarça o óbvio de uma pertença a certa
entidade a quem reconhecem o monopólio que decreta a superioridade moral,
mas que não livra ninguém das habituais patifarias, comuns a quem não
vive como diz pensar.
A verdade
é que, com tanto antifascismo controlado, ficamos sem radicais democráticos,
da família de António Sérgio (1883-1969) e Raul Proença (1884-1941), mas também sem herdeiros de uma
postura centrista. E entalados por extremos da intolerância, corremos o
risco de apagar, do nosso presente, a boa memória de passados com a fidelidade liberal
da monarquia e da república, e com os permanentes resistentes às
ditaduras.
A
inteligente descrição da vida de Salazar feita pelo seu dileto ministro dos
estrangeiros, mostrando como as oposições eram sempre acanhadas, pode não
revelar inequivocamente o essencial do salazarismo, o de transmitir às massas,
e às elites, que ele só existiu porque não tinha alternativa.
Contudo,
a fabricação desta imagem do poder é, antes de mais, o resultado de um longo e
maturado plano da arte de manutenção no poder.
Porque se torna preciso
demonstrar que ele não sequer conquistou um poder que lhe teria sido oferecido,
depois de, num primeiro impulso, o ter abandonado, desde parlamentar eleito em
1921, a episódico ministro, nos primeiros dias da ditadura, em 1926.
Com
efeito, Franco Nogueira (1918-1993) nunca valoriza a participação de Salazar em
congressos de associações comerciais e industriais, nem o papel que teve de
consultor de grandes grupos económicos, antes de 1926.
A
cirúrgica intervenção crítica contra Sinel de Cordes (1867-1930), no jornal Novidades, não é apenas
um impulso de polémica, mas o revelador da construção metódica de uma imagem de
prestígio que dará rampa para que o salto para a cadeira central do poder não seja
feito a partir do chão pisado, mas do cavalo que sempre acompanhou o movimento
da manada dominante.
O seu amigo de quarto, D. Manuel Gonçalves Cerejeira
(1888-1977), até já tinha ido para Lisboa, como bispo de Mitilene, isto é,
número dois do patriarcado.
Toda
a trama tinha sido lançada até pelo cuidadoso processo dos catolaicos que
não marraram contra a república à toa, como o fizeram o grupo de José Fernando
de Sousa, Nemo (1855-1942), ou os monárquicos integralistas. Salazar e o seu
grupo, apesar de profundos adversários do republicanismo, souberam apresentar
uma imagem de sensatez e de sentido de Estado, até quando cooperaram e chegaram
a ser elogiados por António Maria da Silva (1872-1950).
