sexta-feira, 26 de julho de 2019

Salazar arranja seguro para que as democracias liberais não o tratem como inimigo




Em 1944, a nossa democracia-cristã, a dona do poder, não pode ser antifascista, porque o rosto principal do fascismo caseiro é, precisamente, a principal figura da mesma água benta, satélite da sacristia. 

Daí que ele continue a vibrar no ritmo da continuidade de Leão XIII (1810-1903), papa desde 1878, insistindo no Estado supletivo, dito corporativo, sem alinhar com as teses do personalismo de Emmanuel Mounier (1905-1950) ou com a adesão do humanismo integral de Jacques Maritain (1882-1973) à democracia pluralista.

Ser democrata é uma coisa para as elites e não para o povão. Só quase os ricos, com retaguarda de apoio burguês, podem dar-se ao luxo de ativismo político, ou então uma organização quase político-militar e até de comunitarismo quase conventual que, como o PCP, com o seu aparelho de controleiros, consegue aceitação telúrica nalgumas zonas do Ribatejo e do Alentejo e lança movimentos populares que durarão décadas.

Salazar recusa ceder às exigências britânicas quanto à proibição da venda de volfrâmio à Alemanha. Numa atitude salomónica, apenas decide suspender a venda do minério para todos os países beligerantes. Segue-se a assinatura do acordo com os norte-americanos, concedendo-lhes facilidades militares nos Açores, na base de Santa Maria.

O salazarismo das sessões, comemorações, desfiles, homenagens, congratulações e apresentações de cumprimentos é rotineiro, sensaborão, supinamente chato. 

Mas o país parece não se aborrecer com este passear da rotina, articuladamente sabujo. Até o modernismo do subsídio entra na procissão dos venerandos, com José de Almada Negreiros (1893-1970) a ser menos rebelde do que Júlio Dantas (1876-1962) que é tão conservador que até resiste em não-clericalismo, quando é moda o beatério das modas clericais, no próprio sistema de ensino. 

A censura vai velando pelo respeitinho, porque é mais conveniente não deixar fazer do que fazer, proibir em vez de criar, riscando o que os outros desenham.

De qualquer maneira, a partir de 1944, muda a paisagem social da oposição, com a ascensão do PCP à heroicidade da resistência e ao consequente controlo do aparelho ideológico que combate o salazarismo. 

Aqueles que eram marginais, uma década antes, tornam-se nos intelectuais dominantes e nos principais controleiros dos movimentos orgânicos de operários e camponeses.

A maçonaria quase desaparece e fica-se por alguma memória das elites, com papel ainda fundamental na mobilização dos militares reviralhistas. 

Já o regime usa e abusa da rotina de conservação do poder, mas torna-se quase totalmente salazarento, sem memória do pluralismo genético do Vinte e Oito de Maio e, sobretudo, da respetiva ala republicana.

Salazar já fala em nome de uma revolução, de que não fez parte e da qual se tornou simples adesivo. Mas prefere continuar ministro da guerra e dos negócios estrangeiros, como meros discursos ditos de Estado, com que vai aspergindo homenagens e sessões comemorativas. 

Pouco a pouco, transforma a mera neutralidade do começo da Guerra numa neutralidade colaborante, conseguindo acordo com os britânicos para o nosso rearmamento e concedendo facilidades militares aos norte-americanos. 

Isto é, antes do fim da guerra e da derrota do nazi-fascismo, Salazar já está do outro lado e arranja seguro para que as democracias liberais não o tratem como inimigo

Firme na Concordata com a Santa Sé e no Pacto Ibérico, está prestes a ser sócio fundador da NATO, sem passar por um único dia de guerra efetiva, salvo em Timor. 

E propagandeando esta paz genial, vai ter o reconhecimento de uma nação que o prefere a qualquer regresso a uma democracia de que desconfia, porque porque pode ser mero cavalo de Tróia do antifascismo, com entrada dos comunistas.

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José Xavier de Gomide Mouzinho da Silveira (1780-1849) é o reformador liberal que redige a s principais leis orgânica...