Em 1944, a nossa democracia-cristã, a dona do poder, não pode ser antifascista, porque o rosto principal
do fascismo caseiro é, precisamente,
a principal figura da mesma água benta, satélite da sacristia.
Daí que ele
continue a vibrar no ritmo da continuidade de Leão XIII (1810-1903), papa desde
1878, insistindo no Estado supletivo,
dito corporativo, sem alinhar com as
teses do personalismo de Emmanuel Mounier (1905-1950) ou com
a adesão do humanismo integral de Jacques
Maritain (1882-1973) à democracia
pluralista.
Ser
democrata é uma coisa para as elites e não para o povão. Só quase os ricos, com retaguarda de apoio burguês, podem
dar-se ao luxo de ativismo político, ou então uma organização quase político-militar
e até de comunitarismo quase conventual que, como o PCP, com o seu aparelho de
controleiros, consegue aceitação telúrica nalgumas zonas do Ribatejo e do
Alentejo e lança movimentos populares que durarão décadas.
Salazar recusa ceder às exigências
britânicas quanto à proibição da venda de volfrâmio à Alemanha. Numa atitude
salomónica, apenas decide suspender a venda do minério para todos os países
beligerantes. Segue-se a assinatura do acordo com os norte-americanos,
concedendo-lhes facilidades militares nos Açores, na base de Santa Maria.
O salazarismo das sessões, comemorações, desfiles,
homenagens, congratulações e apresentações de cumprimentos é rotineiro, sensaborão,
supinamente chato.
Mas o país parece não se aborrecer com este passear da
rotina, articuladamente sabujo. Até o modernismo
do subsídio entra na procissão dos venerandos, com José de Almada Negreiros (1893-1970) a ser menos rebelde do que Júlio Dantas
(1876-1962) que é tão conservador que até resiste em não-clericalismo, quando é
moda o beatério das modas clericais, no próprio sistema de ensino.
A censura
vai velando pelo respeitinho, porque
é mais conveniente não deixar fazer do que fazer, proibir em vez de criar,
riscando o que os outros desenham.
De qualquer maneira, a partir de 1944, muda a paisagem social da oposição,
com a ascensão do PCP à heroicidade da resistência e ao consequente controlo do
aparelho ideológico que combate o salazarismo.
Aqueles que eram marginais, uma
década antes, tornam-se nos intelectuais dominantes e nos principais
controleiros dos movimentos orgânicos
de operários e camponeses.
A maçonaria quase desaparece e fica-se por alguma memória das elites,
com papel ainda fundamental na mobilização dos militares reviralhistas.
Já o
regime usa e abusa da rotina de conservação do poder, mas torna-se quase
totalmente salazarento, sem memória do pluralismo genético do Vinte e Oito de Maio e, sobretudo, da
respetiva ala republicana.
Salazar já fala em nome de uma
revolução, de que não fez parte e da qual se tornou simples adesivo. Mas prefere continuar ministro
da guerra e dos negócios estrangeiros, como meros discursos ditos de Estado,
com que vai aspergindo homenagens e sessões comemorativas.
Pouco a pouco,
transforma a mera neutralidade do começo da Guerra numa neutralidade colaborante, conseguindo acordo com os britânicos para
o nosso rearmamento e concedendo facilidades militares aos norte-americanos.
Isto
é, antes do fim da guerra e da derrota do nazi-fascismo,
Salazar já está do outro lado e arranja
seguro para que as democracias liberais
não o tratem como inimigo.
Firme na Concordata com a Santa Sé e no Pacto Ibérico, está prestes a ser sócio
fundador da NATO, sem passar por um único dia de guerra efetiva, salvo em
Timor.
E propagandeando esta paz genial, vai ter o reconhecimento de uma nação
que o prefere a qualquer regresso a uma democracia
de que desconfia, porque porque pode ser mero cavalo de Tróia do antifascismo,
com entrada dos comunistas.
