Em 1968, Salazar sofre um acidente doméstico e é obrigado a abandonar o poder, sendo substituído por Marcello Caetano (1906-1980), mas não deixa de fazer uma última remodelação, em 19 de agosto, e até de promover a nacionalização dos Telefones de Lisboa e do Porto (1 de janeiro) bem como a desterrar Mário Soares (1924-2017) para S. Tomé (21 de março).
Estamos no ano oito da guerra, com António de Spínola (1910-1996), governador da Guiné, e Baltazar Rebelo de Sousa(1921-2001), em Moçambique.
No novo governo de Marcello Caetano (1906-1980), ainda restam, do último governo de Salazar, ministros como o irrequieto José Hermano Saraiva (1919-2012), da educação nacional e o maçom Manuel Pereira Crespo, da marinha. Mas torna-se impossível a projetada renovação na continuidade.
Marcello Caetano, que detém todos os poderes que precisa, da chefia do governo ao comando das forças armadas, do controlo do partido único à disciplina da incipiente polícia política, procura eliminar alguns sinais exteriores do autoritarismo, alterando o nome da polícia política, dando nova forma de tratamento aos crimes políticos e aos delitos de opinião e admitindo o regresso de alguns exilados simbólicos, como os de Mário Soares (1924-2017), então desterrado em São Tomé, e do bispo do Porto, mas muitos, como o PCP, consideram que apenas se trata de um salazarismo sem Salazar.
Na televisão pública, dirigida pelo marcelista Ramiro Valadão, destaca-se o programa Zip Zip que, introduzindo um imaginativo sistema de talk show, permite que se divulguem canções de protesto e intelectuais da oposição.
Contudo, o marcelismo, apesar das simpatias manifestadas por alguns intelectuais da oposição moderada, como António Alçada Baptista (1927-2008), não consegue restaurar qualquer tipo de política do espírito e tem de enfrentar um aparelho clandestino comunistaque, nas suas manifestações na legalidade, controlam os sindicatos mais ativos e os movimentos estudantis de contestação, ao mesmo tempo que dominam o processo dos mais influentes opinion makers dos meios de comunicação de massa.
Numa apreciação global, poderá dizer-se que o Estado Novo, que Marcello Caetano (1906-1980) tenta requalificar-se como Estado Social, não deixa de ser um normal anormal, uma espécie de perpetuação de circunstâncias extraordinárias que, com vários pretextos, sempre vai justificando a não aplicação plena dos direitos, liberdades e garantias que tinha formalmente consagrado no texto da Constituição de 1933.
Isto é, o regime vê-se sempre como algo de provisório, como mero ponto de passagem da ditaduramilitar para um sonhado corporativismo, que, aliás, nunca virá a concretizar-se institucionalmente, porque quando podia transformar a respetiva imagem de poder num aparelho coerente, eis que sobrevieram a segunda guerra mundial, a guerra fria e a guerra ultramarina.
Por isso, está sempre mal com as várias modas políticas do tempo europeu em que nasce, cresce e sobrevive, o que agrava as respetivas contradições.
Se, nos anos trinta, não foi suficientemente totalitárioe mesmo antissemita, eis que, depois, não se coadunou com a moda demoliberal e europeizante do pós-guerra.
Finalmente, acabará por morrer com os ventos da história da descolonização, em plena guerra fria.
O principal impasse do regime, na versão marcelista, continua a estar na não resolução política do problema da guerra colonial, ultramarina ou das campanhas de África. Na imagem, Caetano em Angola, no ano de 1969, homenageando Norton de Matos.
De qualquer maneira, o Estado Novo é, sobretudo, uma criatura resultante do prestígio alcançado por António de Oliveira Salazar (1889-1970), um estadista que concretiza projetos que haviam sido tentados frustradamente por homens de Estado como João Franco ou Sidónio Pais (1872-1918), assumindo uma legitimidade contrária aos modelos da democracia, do pluralismo, da economia de mercado de cariz capitalista e do Estado de Direito que, na Europa Ocidental, se tornam dominantes depois de 1945.
Chega a renovação na continuidade, mas que aguenta dez dos últimos ministros de Salazar, apenas com as novidades de Alfredo Vaz Pinto (1905-1976), Horácio de Sá Viana Rebelo (1910-1995)e Rui Sanches (1919-2009). O novo chefe reconhece ciclópicas tarefas e assume-se como um homem comum que vem depois de um homem de génio.
Vai falar numa primavera políticae logo eleva José Guilherme Rato de Melo e Castro(1914-1972)a chefe do partido único e dá posse a Afonso Marchueta (1919-1980), como governador civil de Lisboa.
