Sidónio é fulminante tanto na sua ascensão como na própria
queda. Rápido na vitória, destemido na presença, é como o vento que passa,
sendo aclamado presidente-rei, não
tanto pela urna, quanto pelo espetáculo do passeio fardado pelo país.
Vai olhar
a morte de frente, sem subterfúgios, não cedendo aos conselhos dos tímidos
serviços de segurança e fica, para sempre, com a imagem de que morre pela pátria.
O golpe dezembrista
é de vitória quase solitária, dado que os camachistas
que o montam, depressa abandonam a caravana.
Fica a intenção de uma república nova, menos de dez anos ano
depois da Rotunda, cujo herói, Machado dos Santos, sai da cadeia para engrossar
o sidonismo.
Tudo como um relâmpago que as circunstâncias hão de tragar, ao
submergir na própria violência vencedora que o alcandora a chefe.
Depois dele,
pouco fica da experiência. Nem partido novo, nem alteração da sociologia de
base, mas apenas um campo de batalha entre as velhas forças que matam o regime.
Sidónio não é propriamente um cabo de guerra, experiente em
batalhas, mas um militar académico que só veste a farda e monta a cavalo para
aparecer no boneco da propaganda, garboso e ágil.
Conquistando o poder, sem
programa prévio, vai encomendando as medidas reformistas a retalho, através de
uma série de coligações negativas
face às forças do situacionismo anterior.
Mas não o deixam livre, os inimigos
que esquecem a sua condição de maçom para o reduzirem a simples reacionário.
Que o insultam como soldado
comandante de expedicionários em guerra, acusando-o, injustamente, de traidor e
germanófilo.
E que esquecem a sua presença como ministro num dos iniciais
governos republicanos.
Ainda começa a governar com os unionistas, mas depressa tem de saborear o travo amargo da solidão no poder, principalmente depois
de desinteligências entre os seus apoiantes, com alguns, mais sidonistas do que
Sidónio, a não quererem ouvir a moderação de Egas Moniz (1874-1955), ou os
conselhos de Francisco da Cunha Leal (1888-1970) e de Machado Santos.
Dá muitos passos em frente em sucessivas visitas ao país, com significativos banhos de multidão, avisam-no do perigo
de atentados, mas ele não desiste do intento e acaba por ser assassinado em
pleno coração de Lisboa, na Estação do Rossio. Fica, para sempre, um poder ser.
Os seus governos não primam por uma inequívoca subida de
qualidade dos ministerializados, ou por um acréscimo no recrutamento de elites.
Nem sequer se conseguem identificar medidas ousadamente reformistas, em termos
de legislação ordinária, sobretudo depois das eleições de abril.
Ficam a
revisão da lei de separação, de
Alberto de Moura Pinto (1883-1960), inspirada por Brito Camacho (1862-1934), e
os decretos eleitorais, de Martinho Nobre de Melo (1891-1985).
De qualquer
maneira, é simplesmente erróneo qualificar o período como uma ditadura, embora a ausência
participativa do principal Partido
Republicano, com os seus líderes no exílio, baste para que não possam
invocar-se os resultados eleitorais como uma medição minimamente rigorosa da
vontade popular.
Temos, aliás, um país mergulhado no atoleiro da Grande Guerra, onde até vamos sofrer um
dos mais desastres da nossa história militar. Não falta a fome, com o agravamento da questão
das subsistências e sofre-se o cataclismo da peste, com a gripe americana
a que os americanos chamam gripe espanhola.
O sidonismo é, com
efeito, um simples interregno que
traz consigo as mais negras bestas do
Apocalipse e quase nada de épico pode cantar-se nesse intervalo.
Apenas se
agrava o sofrimento de um povo que parece, cada vez mais, sem alternativa,
cansado, derrotado e sem esperança.
Aliás, o drama vai continuar, mesmo depois
das aparições de Fátima. Constitui apenas a bandeira da procura
de uma república nova que,
no plano eleitoral, tenta um presidencialismo,
assente tanto no sufrágio direto,
como no alargamento do colégio eleitoral. A nossa não podia ser
norte-americana, porque não há e
pluribus, unum.
Aliás, o novo governo,
instituído em 11 de dezembro de 1917, começa por integrar três ministros unionistas, e dois centristas, do novo Partido
Centrista Republicano, surgido a partir dos evolucionistas.
Com a saída dos ministros unionistas em 3 de março de 1918, as forças apoiantes do dezembrismo criam um Partido Nacional Republicano,
em 30 de março, onde se integram os centristas
de Egas Moniz (1874-1955) e os reformistas
de Machado Santos (1875-1921).
O esboço de novo
regime é feito em torno do poder pessoal de Sidónio Pais (1872-1918), a quem
Fernando Pessoa (1888-1935) chega a erguer à categoria de presidente-rei, que não era uma instituição,
ficando dependente de uma constipação maltratada, ou de uma bala não perdida.
Contudo, o interregno vai findar com o assassinato do próprio Sidónio, em
dezembro, ficando também o amargo de uma derrota militar na batalha de La Lys,
em 9 de abril.
