O regime político das Cartas constitucionais, fundado na
amálgama irracional da soberania do direito divino com a soberania da nação,
só podia nascer e sustentar-se pelo sofisma de uma transigência temporária
entre o Absolutismo e a Revolução.
Foi por esta transigência que se perverteu a obra gloriosa do
fim do século XVIII, e que o século XIX se esgotou na instabilidade política,
sem ter ainda resolvido praticamente o problema social.
Os povos fiaram-se nesta obra dos ideólogos; porém, a prática
de mais de meio século descobriu que esse acordo fora falsificado pelo
absolutismo, que, encarregado de executar o pacto, acobertou a ditadura
monárquica com o parlamentarismo e com os ministérios de resistência.
Este regime das Cartas outorgadas, que mal se admitiria como
transição, empregou todos os meios capciosos ou violentos para conservar-se
como definitivo, tais como as intervenções armadas do estrangeiro, conseguindo
embaraçar todos os progressos e debilitar a nação pela ruína económica, pela
degradação dos caracteres individuais, até ao ludíbrio da sua autonomia
O absolutismo implícito na Carta outorgada está
desmascarado, e pelo abuso das ditaduras ministeriais, as mais absurdas, é
incompatível com a nação; a revolução tem constantemente disciplinado as suas
aspirações em opiniões convictas, legítimas e científicas, como as sintetiza
hoje a democracia moderna. Tal é a razão de ser do Partido Republicano em
Portugal, e da sua solidariedade internacional com a democracia dos povos
latinos.
Na expectativa de uma tremenda catástrofe nacional (perda das
colónias, consignação dos rendimentos públicos a sindicatos estrangeiros, e
consequentemente incorporação de Portugal como província da Espanha), importa
que a nação tenha um Partido seu, que pugne pela sua dignidade e independência,
tirando da civilização moderna as bases de uma nova reorganização política.
Esta convicção tem sido o estímulo para a formação espontânea
do Partido Republicano Português, que se desenvolve na razão direta do desalento
público e da propagação do moderno saber, trazido na fecunda corrente europeia.
Para que esse Partido use da força de que dispõe, é preciso que
tenha a clara inteligência da situação que a nação portuguesa atravessa neste
momento, e pela gravidade assustadora da crise consiga o acordo das vontades.
– A situação desenha-se no simples esboço dos acontecimentos
de um ano.
– A unanimidade dos espíritos, essa conseguir-se-á pela veracidade
científica e oportunidade das doutrinas da Democracia; ainda no caso restrito
da sua aplicação à reorganização desta pequena nacionalidade
No estado atual da crise portuguesa só existe uma solução nacional,
prática e salvadora – a proclamação da República. Só assim acabarão os
interesses egoístas que nos perturbam e vendem, só assim aparecerá uma geração
nova capaz de civismo e de sacrifícios pela Pátria.
No momento que atravessamos não há lugar para demonstrações
teóricas, nem para argumentar com os pedantocratas do constitucionalismo. Eles
já deram as suas provas. Para a crise extrema um supremo remédio.
Diante da Pátria vilipendiada pelo egoísmo de um regime e
pela inépcia de todos os partidos que o sustentam, seja a nossa divisa a bela
frase dos homens de 1820, que souberam libertar Portugal do protetorado
execrando de Beresford: «Uma só vontade nos una…» para procedermos como herdeiros
das nobres gerações de 1384, 1640, de 1820 e de 1834, fazendo a obra gloriosa
da reorganização de Portugal.
(Manifesto-programa do
Partido Republicano)
